Reciclagem de lixo eletrônico no Brasil pode movimentar 300 milhões de reais por ano



O mercado de reciclagem de lixo eletrônico, ainda incipiente no Brasil, pode movimentar 300 milhões de reais por ano


Por quase três décadas, milhares de equipamentos obsoletos, como computadores, aparelhos de fax e impressoras matriciais, ocuparam um depósito de quase 300 metros quadrados nas dependências da usina hidrelétrica de Itaipu, em Foz do Iguaçu, no Paraná. Nesse período, 63 toneladas de sucata tecnológica se acumularam - e a perspectiva era de alta. O descarte, porém, tinha de ser planejado. Havia a preocupação de evitar que os equipamentos velhos fossem parar nas mãos de sucateiros, que certamente jogariam fora parte do material. "Guardamos tudo durante todos esses anos porque até então não havia uma forma de darmos um destino correto a essa parafernália", diz Fabrício Rocha, gestor de logística reversa da Itaipu Binacional. A solução encontrada pela usina foi fazer um leilão eletrônico. Em setembro, o material, avaliado inicialmente em 50 400 reais, recebeu 150 lances de quatro empresas, mas foi vendido por 9 400 reais. 



O menor preço não foi um problema - o importante era que o vencedor do leilão provasse ter a tecnologia para realizar a chamada manufatura reversa, que inclui o desmonte dos equipamentos ao final de sua vida útil e a destinação ambientalmente correta de todos os seus componentes e materiais. "A partir de agora, quando precisarmos renovar os computadores, o fornecedor das máquinas ficará responsável pelo descarte final dos equipamentos antigos", afirma Rocha. 

A correta destinação de resíduos eletrônicos se transformou num dos maiores desafios ambientais do mundo. Todos os anos, são produzidos aproximadamente 50 milhões de toneladas - 10% desse total nos Estados Unidos e na China. De acordo com a Organização das Nações Unidas, o lixo tecnológico cresce três vezes mais do que o tradicional, e o problema é cada vez mais grave nos países em desenvolvimento. No Brasil, estima-se que sejam descartadas quase 400 000 toneladas de eletrodomésticos e eletroeletrônicos por ano - o que equivale a quase 2 quilos por habitante. Somente uma pequena parcela, cerca de 2%, é reciclada de maneira correta. A baixa destinação está ligada à falta de capacidade instalada para lidar com esse tipo de resíduo. Menos de dez empresas no país possuem tecnologia para realizar a manufatura reversa. 

Para os próximos anos, a expectativa é que esse quadro mude. Um dos motivadores é a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Sancionada em 2010, a nova regulamentação prevê que uma série de resíduos especiais - como eletroeletrônicos obsoletos, pneus, lâmpadas, medicamentos, pilhas e baterias - seja objeto de gestão compartilhada entre indústrias, varejo e consumidor final. "Desde a entrada em vigor da lei, começaram a ser elaborados os acordos setoriais para a gestão desses resíduos, envolvendo todos os elos da cadeia", afirma Carlos Roberto Vieira da Silva Filho, diretor executivo da Abrelpe, entidade que reúne as empresas de limpeza pública e resíduos especiais. 

Por causa dessas negociações, a expectativa dos empresários do setor é que até 2014 o mercado de reciclagem eletrônica decole de vez. Se isso realmente acontecer, vai haver um grande incentivo para incrementar a capacidade de reciclagem. "O parque instalado hoje no país para realizar a manufatura reversa dá conta de apenas 20% do estoque acumulado de lixo tecnológico", afirma Lucas Veloso, gerente-geral de manufatura reversa da Oxil, empresa de reciclagem com sede em Paulínia, no interior de São Paulo. Hoje, a Oxil tem tecnologia para tratar qualquer tipo de equipamento eletroeletrônico, de celulares a geladeiras. Seus principais clientes são os fabricantes de computadores, como Dell, Lenovo e Apple, que aplicam no Brasil as políticas de descarte de equipamentos exigidas pelas matrizes. "Nossa operação é lucrativa, mas dependemos da consciência ambiental das multinacionais e de nosso esforço para obter matéria-prima", afirma Veloso. 

A logística acabou se tornando um dos maiores entraves para as empresas do setor. Enquanto as unidades de processamento de resíduos estão concentradas nas principais regiões metropolitanas, a matéria-prima encontra-se espalhada por todo o país. "Para o negócio ser viável, é necessário reduzir os custos com logística, descentralizando as operações", afirma Roberto Lopes, superintendente da Essencis Soluções Ambientais, empresa de manufatura reversa de São Paulo. Ele calcula que 50% do custo operacional da empresa seja gerado pelo transporte das matérias-primas. Em junho, a empresa inaugurou sua maior unidade dedicada ao desmonte de aparelhos no país, em Caieiras, na região metropolitana de São Paulo, com capacidade mensal para processar 1 000 toneladas. Atualmente, a maior parte dos equipamentos processados pela Essencis são refrigeradores antigos. Eles vêm dos programas de eficiência energética das concessionárias de energia, que promovem a troca das geladeiras velhas da população de baixa renda por modelos novos. 

Parte do desafio logístico também inclui acessar os equipamentos que estão estocados em milhões de residências no país. De acordo com um estudo da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica, 35% da sucata tecnológica é guardada pelos consumidores - uma boa notícia do ponto de vista ambiental, mas um desestímulo aos investimentos na cadeia de manufatura reversa. Algumas empresas têm batido de porta em porta em busca de TVs, computadores e celulares ultrapassados. A mineira E-Mile roda a região metropolitana de Belo Horizonte à procura de equipamentos velhos. Metais nobres contidos em placas e circuitos eletrônicos, como ouro e prata, são reciclados no exterior. "O Brasil ainda está engatinhando nesse mercado", diz Fernanda Marciliano, diretora da E-Mile. Independentemente de onde seja feita a reciclagem, o importante é diminuir a pilha de lixo tecnológico.

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